prata da casa: dose dupla
- 2 de fev. de 2016
- 2 min de leitura

I
Noturna e fria hora
A umedecer minha sensibilidade nua
Com sombras de fios de cabelo
Amarrados nos punhos do vento.
Balançam
semblantes na neblina
espessa e mole como uma memória.
E incrustações
míopes
embaçam o futuro
com a gema escura
de teus pelos.
Deslizo por tua nuca
Até penetrar no arrepio da hora
( -
quebrada
em cobertores mais particulares.)
Alguém que chegasse ao portão
(qualquer que fosse, contan-
to que enferrujado)
- E perguntasse pelo dia:
É de se dizer que não houve céu
hoje
que no céu estávamos.
II
Ainda há pouco era um arroio que cruzava
nossos tímpanos dormentes
um regato sóbrio que descia
montanhas místicas
passando alheio e baço à beirada de nosso leito
e havia roseiras que se plantavam
aos pés das porteiras enferrujadas
sobre as quais o Universo era um ponto andante
nós subíamos escadas e
abaixávamos contra tijolos para ver
as fotografias do devir
tínhamos uma nau à pedalos,
trilhas de ervas calmantes
cachoeiras expurgantes e filhas
em nós
Lá fora, agora,
atravessamos os mastros do poente
prematuro deitando a sombra da íris
para os carros oficiais
Todos sabem que os camelôs
guardarão suas bagagens à passagem
dos aluviões vis –
todos sabem que dobrarão
as canções como à bandeira nacional
Nos dirão:
Isto imperfeito. Aquilo incivil.
Impróprio. Condenável. Inaceitável.
o impossível
mas os antecedentes criminais
jamais brindarão aquilo que nos suscita presença.
Não importa
nós arrumaremos sirenes para em tudo tocar no céu
haja pernas para suprir
aquilo que ganhamos em alargamento
da lonjura do mistério
Contra febre é inútil querer
desentupir paisagens interrompendo instantes
quando descobri o sangue no vinho
estava a jogá-lo no vão
o desperdício é inerente à clareza
e a morte o sacrifício da incompreensão
.........................
...............................
.......................................
que bela vista se tem
ao escorregar a garganta desta cadente!
que atraente envelope
a atmosfera destas ruas!
... minha cabeça de vidro
encosta a argueira em teus dentes
nos contamos estórias:
ainda há pouco era um arroio que cruzava
nossos tímpanos dormentes ...
etc.
etc.
etc.
Poemas por Diogo Henrique Cardoso
Écloga

A estrela do meu tarô
decidiu viver assim.
No amparo de seu corpo
negro, nu e riscado
de arcano-fêmea
ela escondeu o seio úmido
diante de um balde frio
de cal viva. Ora,
na língua da ciganagem
aventurosa, o amor
talvez seja pobre. O amor
talvez seja um simples
recorte delicado e tosco
de papel amarelo,
uma lasca de osso velho.
A estrela do meu tarô
é só um muro, no fundo
insuperável
daquele jardim
Poema por Vitor Queiroz











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